Hoje foi um dia extremamente interessante,
voltei aos 12 anos! Passeei pelo tempo em que as responsabilidades ainda não me
acompanhavam e só as brincadeiras de quintal e ruas aconteciam, porém notei que
junto com toda essa fase, fui negligenciando um outro lado que sempre senti
falta em toda minha vida e que hoje mais uma vez fui cobrado. Minha filha de 10
anos me fez uma pergunta que minha esposa já tinha feito desde que nos casamos
(20 anos) e eu fugia dela: Pai, por que você não lava suas cuecas? Nós sempre
lavamos nossas calcinhas! O Senhor tem quantos anos?
Depois dessa, eu fiquei ali
calado um pouco, pensei, pensei, era hora do almoço, a conversa tomou outro
rumo e fui trabalhar. Ao voltar, sem o tema em mente, fui tomar banho, de
repente senti vontade de passar a máquina no cabelo e comecei a fazer, desde
então foi como que a viagem da qual comecei relatando iniciasse, comecei pelo
cabelo e depois pela barba e comecei a imaginar aquele garoto mimado criado sem
limites, que não foi ensinado a fazer as simples tarefas domésticas e que agora
tinha enormes dificuldades já com família constituída. Enquanto o rosto ficava
limpo, o cenário do comportamento denunciava aquela criança que ainda estava
ali, agora bem maior, mais ainda o mesmo, as cuecas, em amontoado abaixo da
pia, esperando a mãe vir pegar pra lavar, agora já não pode mais, foi
substituída pela esposa.
Não suportei! Hoje tenho que
quebrar isso em mim! Continuei cortando o cabelo, e dizendo para aquele garoto,
você é lindo, mas precisa crescer, faltou algumas coisas pra você e hoje você sou
eu! Fiz a barba, peguei as cuecas e as lavei pela primeira vez, ao sair do
banheiro, todas olharam pra mim: o que aconteceu com você? Tirou a barba? Foi!
E o que é isso na sua mão? Perguntaram! E eu respondi com sete cuecas na mão
levantando-as! E fui aplaudido e ouvi gritos: milagre!
Airton Junior - 05/05/2020